Quem sou eu?

 Somos seres humanos. Somos vivos, pensantes por natureza, e experienciamos uma realidade tangível ao longo da nossa trilha por esse grande planeta rochoso. Não é estranho pensar que vagamos por um longo e infinito universo, em uma velocidade absurda, girando sem parar? Entre todas as improbabilidades, a única incerteza se torna a certeza de nossa espécie: a vida. A vida é um grande paradoxo. Posso ser uma pessoa nova, mas minhas vivências já me ensinaram isso muito bem. Belchior, um renomado cantor da ditadura militar brasileira, em solos passados, compôs: “Viver, é melhor que sonhar”. E os sonhos não são exatamente parte da nossa realidade. Ou são?

Afinal, o que é viver de fato? Se buscarmos definições abstratas, a vida compreende o período de animação da matéria. Para a biologia, a vida é o tempo que separa seres inanimados dos inanimados. Para a filosofia, viver é a construção do conceito existencial que cada persona pode adquirir ao longo da suas experiências. Viver é pensar, por isso, se eu penso, de fato eu posso existir. Mas estaria a vida limitada ao pensamento? Na biologia, diz-se que não, afinal, há muitos tipos de formas de vida, e algumas delas, não tem estímulos sensoriais ou nervosos. Para a filosofia, a resposta pode ser ainda mais paradoxal, pois não exatamente a vida se limita ao pensamento, mas é a racionalidade que permite a compreensão dos sentidos.

Mas parafrasear frases de outros estudiosos sempre é muito fácil. Na nossa realidade, nos preocupamos muito mais em decorar e aprender o que outras pessoas pensaram, mas pouquíssimo sobre chegar a conclusões críticas por próprio merecimento. Para mim, viver é sentir. Viver é sobre se sentir liberto, sobre vagar pelos campos da mente, mergulhar nas águas do sentimento, experienciar os sentidos e se amalgamar no amor da matéria. Viver, de fato, Belchior, é melhor que sonhar. Os sonhos podem até parecerem melhores que a vida, mas tombam sua moral pelo simples fato de serem apenas devaneios, expressões inconscientes, ou sinais de algo que de algum modo está dentro de sí. Viver pra mim é sonhar; sonhar acordado, e entre cada maré de conhecimento que a estação trás, crescer junto á tripulação.

Eu sou uma longa história. Mas que história que de fato, não é longa?
Ou seria melhor dizer - sou eu uma grande estória.

Sou a imensidão do vazio. Sou a solitude e a solidão; sou o pecado e a santidade; sou a espiritualidade e o materialismo; sou o oprimido e o opressor - eu sou o que sou, e prefiro ser a metamorfose, e como besouro, voar pelas transformações que a vida me trás. Conforme desenvolvo esse texto, me vem a cabeça: a vida é substantivada. Ao mesmo tempo que podemos tratar o vocábulo como um adjetivo, uma qualidade das coisas, a vida tem vida própria. A vida tem vida. A vida também é uma pessoa, e conhecer essa pessoa leva tempo. Em cada frase, ela se posiciona de um jeito. Se reconhecer como indivíduo num mundo tão vasto, não é fácil. Na verdade, somos sempre abalados pelas transformações em meio à caminhada. Perdidos, amargurados, sedentos por um único feixe de luz que ilumine o enorme túnel escuro da existência. Crescer não é facil. Viver não é fácil. Viver é sobre escrever histórias, e quando me perguntarem sobre o que é a vida… bem… prefiro dizer: 

a vida é uma grande história.

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