Contemple as Estrelas: o nascimento de Solidão.




Sabe, quando pequeno eu amava observar o céu. Observar cada estrela, cada ponto cintilante, cada galáxia e cada poema, cada história que o mundo podia me contar. Alguns famosos pensadores nos disseram que o céu é o reflexo da nossa alma. Cada estrela, cada luz que de muito longe chega até os nossos olhos, é um pedaço de uma história. Um pedaço de alguém, que há muito tempo já não pisa entre nós. 

Sempre gostamos de pensar o céu como uma noção de um acalento. Seja espiritualmente, seja mitologicamente, as estrelas abarcam o desconhecido. Abarcam aquilo que já não podemos mais ver – mas podemos sentir. Sentir é uma coisa incrível, não é? O ser humano é fascinado pelos sentidos. Contemplar as estrelas sempre me trouxe algum tipo de emoção.  É o desconhecido. O vislumbre do mistério. A certeza de que algo já estava aqui muito antes da fagulha de pensamento que um dia viria a se tornar eu. E olhar para o mistério é assustador. 

Conforme o tempo passou, o céu deixou de ser um mapa. Onde antes existia direção, nasceu a confusão. Todas as cores da aquarela que coloriam a infância se corromperam num único tom de cinza, e as brincadeiras e o encanto, deixaram de fazer sentido.  Vivemos preocupados com o futuro. Vivemos preocupados com o passado, mas nunca olhamos para o presente. Somos alienados completamente do nosso propósito aqui na terra. De fato, as estrelas pararam de brilhar. 

Mas, alguma vez, você já se sentiu sozinho?

 Eu acho engraçado pensar na solidão. Porque não é algo que existiu desde sempre em mim. Mas em algum momento ela me encontrou, e fez questão que eu entendesse muito bem quem ela é. Não consigo me lembrar onde ou exatamente quando nos conhecemos. Mas sei que ela nasceu de uma longa relação de dor. 

Reza uma lenda muito antiga, que um dia, um enorme gigante e uma princesa se apaixonaram, e seu romance, era algo proibido. Como se justificaria para o povo duas raças tão diferentes se amarem? A princesa, chamava-se “Amor”, e o gigante, “Dor”. Do casamento de ambos, um filho proibido nasceu: a solidão. Solidão era esquisita por natureza. Era estranha. Tinha longos cabelos negros, e vestia-se cada dia com uma cor. Mas algo era peculiar naquela criatura.  Solidão nunca mostrava o próprio rosto, mas estava sempre muito atenta. Nada escapava aos seus ouvidos, de modo que era a mais atenciosa do reino. Mas nunca foi ouvida sua voz. Ela andava sempre pelos cantos: nas paredes, nos cemitérios, nas bibliotecas e nas praças, e seu momento preferido, era a lua cheia. 

Ah, sim… A lua dos poetas. Tão bela, não? Aquela que lindamente brilha ao lado das estrelas. A lua é algum tipo de mãe, de onde todos os caminhos floresciam, diziam os gigantes. Solidão era fascinada pela lua. Porque na luz da lua, ela sentia acalento. Nunca recebera nenhum tipo de carinho, porque era a maior aberração daquela ilha.  Mas um dia, Solidão se revoltou. Cansou de viver do julgamento, e se trancou no mais profundo poço que um dia existiu. Sua família fingia que nunca existiu, mas de vez em quando, via-se o fantasma rondando, e os boatos de que o Amor e a Dor tiveram um filho rondavam por todo o reino. 

Foi decidido, Solidão nunca mais sairia daquele poço. Estava fadada a se enclausurar nas masmorras da família da Dor, e uma vez ao mês, poderia ver o Amor. O Amor era aquilo que ela mais admirava. Foi somente o Amor que um dia viu o rosto da solidão. E percebeu que nunca foi feia, mas na verdade, nunca foi compreendida. E assim, ela permaneceu. E dizem os sacerdotes da profanidade, que todos aqueles que sentirem Solidão se aproximando, deveriam, em longos banhos gelados, expulsá-la. 

A dor é uma coisa muito bruta. Na verdade, estamos o tempo todo buscando o eterno brilho das estrelas que perdemos no céu. Buscando as direções que o mapa da vida um dia deixou de apontar, e rezando que os nossos heróis voltem a se comunicar.  Sempre foi como caminhar pela rua. Vozes, pensamentos, e as estrelas. Cobiçando um futuro que nunca foi meu. Talvez, nem voltar no tempo poderia resolver tamanha depravação. Mas, tenho fé, ainda vou conhecer o amor.

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