Um ensaio poético sobre a caridade
Pela fenda nascente
observava o mundo.
E em cada sol poente,
tons de vermelho e castanho
encantavam meu olhar.
No tear dos pensamentos, tecia o lençol:
linho branco, forjado do algodão,
cândido, que cobria a onisciência.
Filtro que retardava a consciência.
Bela fotografia, mostrada num girassol.
E em escuros navios que vagavam pelo céu,
o linho preto no meu quarto não me fazia réu.
Tecia aranhas sob o sótão do pântano,
afogava mágoas em reza e quebranto.
E ao abrir os olhos, cada nuvem virava fumaça.
Hoje o sol continua a se pôr…
Talvez em vermelho,
talvez em castanho,
talvez em amarelo.
Eu lá tenho tempo pra reparar na cor?
O “saber” é uma prisão,
prisão de vento:
mórbida, feroz,
que te faz de cabresto,
que te joga em meio aos cipós.
Eu sou bom,
um bom amigo,
um bom conselheiro,
uma boa pessoa.
Eu agrado aos comerciantes,
que nessa viagem
me contratam como comediante.
Sou um alguém.
Um alguém distante,
que sempre está em pé para ouvidos,
mas poucas vezes…
para ser ouvido.
Mas mais que tudo isso,
eu sou bom:
uma boa pessoa,
um bom amigo.
Sou um alguém.
Mas um alguém distante.
Por que lençóis?
Se a realidade foi feita
para ser vivida e enxergada
sem fronhas,
sem frescuras,
sem torturas?
É mais fácil assumir:
eu sou bom,
um bom amigo,
uma boa pessoa,
um alguém que todos podem contar.
Contar suas mágoas,
suas tristezas,
suas decepções.
Mas nunca…
aquele que tem tempo
para desabafar.
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