A Dialética entre Semelhanças: Racionalidade, Funcionalismo Humano e as Sombras do Pessimismo
O que se pretende dizer nesta instância é que a ordem nunca foi um fator humano. A convivência com diferenças sempre instaurou algum tipo de anormalidade comunicativa entre cada um de nós — quase que um sistema onde lidar com a diferença é como engolir agulhas. Em ponto de partida inicial, este texto não buscava, de modo nenhum, adquirir um caráter científico ou informativo sobre algum ponto do Homo sapiens. A este tópico, passo a palavra ao renomado pesquisador Jaime Pinsky, que, para muito além de mim, terá boas informações sobre a evolução humana para nos pastorear. Em realidade, meu foco é a relação do humano com humano, que, muito acima de um processo científico, também é moral e espiritual por natureza; e, ao longo desta dissertação, pretendo explicar as nuances de um sentimento dos mais torturantes que desenvolvemos de nós para nós mesmos: a frustração e a decepção.
De fato, lidar com diferenças nunca foi um forte de nossa civilização. O próprio conceito de civilização já traz em si algo para refletir a respeito disso, uma vez que ele parte de um bias de caracterização sobre um povo em detrimento da inferioridade do outro. Quem decidiu o que era ou não ser civilizado decidiu dentro de suas verdades e conceitos, e aquilo que fugisse à regra não se encaixaria nesse quadro. O ser humano sempre olha para o outro como diferente, e nunca como parte de si. Afinal, como dizem pelos nossos dias as boas línguas, é “em diferenças que encontramos semelhanças”. O que, de fato, é uma boa consideração — já que cada um de nós é único, e é o ato de sermos dotados de personalidade que permite o sentimento de pertencer.
A relação entre humanos, para além de um processo de necessidade, como dizem bons historiadores, é um processo de pertencimento social. Por isso, as relações que nos moldaram podem também ser analisadas por algum viés de moralidade — que se define, de modo raso, como um conjunto de normas, costumes e modo de se pensar dentro de um determinado conjunto social. Somos quem somos e nos relacionamos com quem nos relacionamos pelo simples fato de, em algum critério pessoal, entendermos que o meio ao qual estamos nos inserindo dialoga com as nossas intimidades a respeito de quem somos. Dentro desse ponto, o objeto de análise também se funde com algum tipo de característica espiritual, pois, não raramente, conexões humanas acontecem por vislumbres intuitivos. Nesse caso, entram aquelas relações onde, por mais que existam muitas diferenças dentro do conjunto moral de cada uma das partes pensantes, algum tipo de força ou animismo parece manter a luz acesa, quase como um carisma que encanta ambas as partes. Isso é a intuição: o método onde se entende a partir de sentimentos e não se explica, necessariamente, por algum tipo de lógica organizada. É uma lógica sentida, que mais diz sobre como estamos do que como pensamos.
E é dentro dessas conexões sociais que encontramos as maravilhas da racionalidade. O homem, um ser tão pensante, mas que se estreita em tamanha fragilidade. É comparável a andar em um trem que, sem maquinista, não possui combustível, mas insiste em se mover, expressando tamanha ignorância. Somos, de algum modo, brutos por natureza. Desenvolvemos a capacidade de construir grandes prédios, de edificar fortes muralhas, de justificar a morte, o abuso e a exploração de pessoas inocentes, mas não a capacidade de entender o outro. Entender cada lado sempre é um problema. Isso porque o julgamento sempre parte do pressuposto de que eu sou superior ao outro (lembra-se do conceito de civilização que, inocentemente, introduzi anteriormente?). Somos, por um processo de apagamento identitário, forçados a ser uma raça pessimista e interesseira. E aqui mora o segundo tópico de estudo deste devaneio de altas horas sob o qual me deleito: a frustração e a decepção.
Como um bom apreciador das ciências que construíram o ser humano — enaltecendo, claro, as ciências humanas — , irei me valer neste tópico de duas abordagens distintas, mas semelhantes (e caberia aqui dizer, portanto, duas abordagens “humanas”): a filosofia e a psicologia. Para início de modo, a ciência do questionamento ensina que a frustração é um problema inerente de nossa existência em detrimento da realidade. A partir de algum tipo de erro de julgamento, caímos no campo de concentração do ego, onde buscamos o controle de situações que não nos pertencem. Como Schopenhauer, estamos entre o desejo e o tédio, e a frustração é o resultado inerente dessa dialética, que sempre se relaciona com a batalha da ordem pelo absurdo. Em palavras mais simples, sentir-se frustrado é sentir que nossos esforços são ínfimos em meio ao mar de tempestades que assola cada um.
Para a psicologia, encontra-se um tópico digno de anedota. A frustração é um estado emocional que funciona como um gatilho para reações comportamentais, sejam elas agressivas ou não. Ao não alcançar aquilo que se deseja, o indivíduo acumula energia e busca uma saída. A decepção, ao contrário do que se acredita, não é um sinônimo do primeiro termo. Na verdade, este segundo se relaciona à quebra de algum tipo de crença ou esperança, onde se compara o que aconteceu com aquilo que se idealizou, enquanto a frustração em si é um mecanismo para o obstáculo — como, por exemplo, idealizar que um amigo sempre irá pensar em você e, de uma hora para outra, perceber que, na realidade, não. Você dispensou energias para aquilo buscando controlar um resultado, mas adquiriu outro. O que é ligeiramente diferente de um caso de decepção onde, ao passar por um momento difícil, espera-se o apoio de um amigo, mas este se coloca como inacessível. O que dói, nesse caso, é a quebra de imagem idealizada sobre aquela relação.
Nosso modus operandi social, no que tange à minha percepção ao longo de curtas dezoito primaveras (que um dia acreditei que seriam muito menos), é que sempre iremos caminhar rumo a algum tipo de frustração ou decepção. Não por uma maldade intrínseca do homem, até porque, em meu viés, não somos “maus por natureza”, mas sim, somos naturais. Somos como qualquer outra raça que por este solo pisa, pisou ou ainda irá pisar. Isso porque pensamos sempre naquilo que é melhor para o conjunto de normas instintivas que estabelecemos ao compreender o mundo. Mas a frustração e a decepção inerentes ao racionalismo humano que aqui exponho não vêm desse processo intuitivo. Elas vêm de um sistema exploratório muito maior que nos abarca, onde o olhar de diferença não integra quem somos, mas frustra nossos extremos e decepciona nossas paixões. Ao caminhar o desenvolvimento para um apagamento total sobre quem somos, e num desencantamento weberiano forçadamente instituído, nos tornamos cada vez mais robóticos e cada vez mais frustrados sobre o futuro que idealizamos, as pessoas que um dia almejamos e o que, de fato, podemos ser.
Este texto pode ter parecido uma mistura de caos com algum tipo de sentimentalismo. É exatamente a ideia que eu gostaria de passar, já que é deste modo que funciona meu cérebro. Conectar uma introdução sobre a gênese de nosso povo — com métodos dedutivos e indutivos, funcionalismo humano, psicologia e filosofia — tudo isso dentro do tópico da crítica ao abstrato racionalismo da nossa espécie, é um tema que pode gerar debates. Mas, se fosse para escrever com algum tom de seriedade, estaria escrevendo artigos, não no blogspot às 2:00 da manhã.

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